aquele que ama, aquele que age OU resposta para Elisa e para o Senhor T.

Cadu, meu querido amigo e ator,
Começo esta carta com uma confissão porque confissão é coisa tanto de amigo quanto de ator: eu estou amando. Faz quatro dias, um amor do passado ainda muito querido por mim voltou, me obrigando, como fazem os amores que voltam, a parar e ver. A re-parar e re-ver. Re-paro nele, em mim, em nós dois nos re-encontrando... Tenho parado novamente sobre as coisas do mundo, amigo; re-vendo-as, vejo-as pela primeira vez. E nesta nova paragem, nova paisagem, me percebo em atenção carinhosa para com elas. Às coisas do mundo, tenho me voltado inteiro - ativamente calmo, docemente alerta. É uma sensação concreta. Estou falando de mim em relação ao chão que piso, aos sons que escuto, ao fluxo das pessoas na cidade, à minha respiração...  Estar vivo desta forma, escuta fina em alegria, é a esta experiência que chamam... amar? Eu estou amando, amigo. E te digo isso porque desconfio que amar seja um estado de presença. E um estado de presença semelhante ao estado de presença de um ator em cena. Mais: desconfio, aqui, do alto da minha lucidez amorosa, que estes dois estados sejam, na verdade, a mesma coisa.
Nós, atores de teatro, somos artistas do presença. O que é o mesmo que dizer que cabe a nós, em nosso ofício, investigar e construir formas de agir no aqui-agora de um instante. Deste instante. Que agora já se transformou neste instante, e agora neste... Independente do estilo, do gênero, da lógica estética da peça em que trabalhamos, em atuar a pergunta é somente uma: estamos presentes? Eu, ator, estou de fato afetando e sendo afetado pelo outro? O outro ator, que me lança palavras no espaço; o outro textura da camiseta que me veste nesta e em todas as noites de apresentação; o outro-barulho de uma passeata que acontece na rua do teatro no exato momento em que inicio meu texto sobre ser ou não ser... O outro-espectador que me olha, e a quem eu olho... (silêncio. Vê uma pessoa do público. Aproxima-se) Sabemos ver um ao outro? (pausa. ao espectador) Você consegue me escutar? (pausa)
O nosso corpo é todo ouvidos, amigo ator. Você sabe o que é isso. Eu também. Uma noite, faz uns dois anos, logo depois me despedir de uma pessoa especial, eu andava sozinho pela rua, quando senti: calmamente, era como se o mundo estivesse me contando o meu segredo, e eu lhe contava o dele. Ali, naquele instante, como que agradecendo-nos um ao outro por estarmos no descobrindo juntos - eu e o mundo-,  eu estava amando. E amar era  a maneira mais legítima de uma pessoa... ser. Eu estava sendo. Era o meu máximo até então. Em ser, assim, desse jeito, dar e receber eram a mesma coisa. Eu não primeiro oferecia ao mundo para depois ter de volta. Em ser, entregar-se era de mim para o outro e do outro para mim ao mesmo tempo. E o nosso tempo, ali, era o presente.
Como o corpo daquele que ama, o corpo daquele que age, o ator, é puro engajamento e implicação. E todos nós sabemos o quão revolucionário pode ser um corpo verdadeiramente engajado e implicado naquilo que faz. Este corpo, ao potencializar a dimensão de presença de sua ação, faz do agir o seu próprio espaço e o seu próprio tempo. E desta zona de intersecção entre quem, onde e quando, lugar misterioso de integração entre o eu e o entorno, ele descobre que ser é liberdade, autonomia e transformação; descobre modos autônomos e livres de ser. 

Comentários

  1. Cadu, ukm amigo meu ator que mora na França me pediu um depoimento sobre como era para mim fazer teatro hoje em dia. Na época em que fui começar a escrever sobre, aconteceu a experiência que falo no começo do texto. Fiquei arrebatado e decidi partir disso para, depois, pensando o amor como um ato ético e politico, fazer a relação... mas o prazo acabou, eu capricornio com virgem perfeccionista chei melhor entregar so o começo do texto mesmo e nao apressar o resto. O texto é ai de cima. Me perdooem a loucura da minha lucidez apaixonada. ou a lucidez da minha loucura... mas tudo é tao grande...

    O amor do passado pousou de volta mas j voou novamente. Talvez ele seja assim. Talvez sejamos assim, nós dois. Um lugar para onde voltar...

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