Prezado senhor T.

  Nos conhecemos na escola e como todo amor,  pensei que fosse infinito. Você era a minha escapulida da matemática, de todas as inseguranças da adolescência, com você eu podia ser muitas outras, era até mulher antes de ser uma de fato. Eu esquecia que tinha vergonha dos meus peitos irregulares por causa do crescimento, de todos os apelidos da escola e de toda a pressão daquele ambiente freiril e uniformizado. A gente se entendeu de primeira, no palco eu sentia um constrangimento tão gostoso, ele ia saindo em forma de suor e coragem do corpo. Lembro-me de como me sentia, de cada detalhe, antes de entrar em cena. Era vida ou morte. Era a ponta mais instável do abismo. Era a completude do ser, a minha imagem semelhança, meu amor bandido.
  Como todo amor, acabou. Você se tornou ignorante e egóico de uma hora pra outra. Se acostumou comigo. Nos acostumamos um com o outro e a repetição se tornou mais presente do que o encantamento. Pior, você me traiu com top models, ex-bb, com a filha da sobrinha de alguém importante, com a Luana Piovani, Claudia Raia.... Não suportava sua terças insanas e eu em casa esperando uma ligação. Eu em casa masturbando Shakespeare. Depois começou a exigir-me outras formas, peso ideal, discursos importantes, nomenclaturas complexas. Até mover um braço ficou dificil, tinha que ter um porque, uma proposta, um termo. Você está sempre ocupado. Eu estou sempre em questão. Antes eu achava bonito esse negócio de crise, hoje acho um tédio. Tenho vergonha de todos os atores dentro dos teatros fingindo se ocupar de algo importantíssimo. Hoje percebo que fiz uma escolha errada, talvez eu devesse ter prestado mais a atenção nas aulas de matemática. Nosso relacionamento é altamente abusivo porque não tem saída, você não me dá opções. Quanta pretensão achar que o teu corpo é importante ser visto, ser dito. Há os que se defendem dizendo que não. Que somos veículos. De cu é rola! Até o humilde é um egóico mais bem elaborado que ao dormir sorri pensando na sua generosidade. Os grandes mestres se utilizam da hierarquia, falam tanto de escuta, mas perderam os ouvidos. Só encontram as tuas orelhas quando está presente um mestre maior do que ele. Um doutor. Eu gosto do público que joga flores ou tomates. Só. Pior são os que acham que você é capaz de matar a fome de alguém. Nem a minha você matou. Outros desesperados, ao descobrir a sua inutilidade, justificam a cena dentro de uma certa espiritualidade por ser divino, inexplicavel e individual. O sonho de todo artista é ser divino. Preciso voltar pra minha sombra, pular fora, sentar na platéia. Adeus ó traidor! Ai de mim! Ai de mim! Você não está a contra pelo, muito pelo contrário, está à favor. Grita que é contra o golpe mas mama na teta dele com a desculpa de que tem que se alimentar. Tô fora. Cansei de pensar sobre o que o corpo já faz naturalmente, Quero chorar quando for preciso chorar. Meu diafragma faz o mesmo percurso de sempre e não precisa de um outro desocupado para fingir que sabe respirar mais do que os outros, O corpo respira e sente naturalmente. Adeus, preciso produzir algo de útil pro mundo e eu tenho cada vez menos tempo. Algo concreto como uma cadeira para sentar, uma mesa para apoiar, casaco para aquecer. O pensamento assim nos acovarda,e assim é que se cobre a tez normal da decisão com o tom pálido e enfermo da melancolia; E desde que nos prendam tais cogitações, empresas de alto escopo e que bem alto planam desviam-se de rumo e cessam até mesmo de se chamar ação. Não ser ! Não ser! Não ser!

Comentários

  1. "Até o humilde é um egóico mais bem elaborado que ao dormir sorri pensando na sua generosidade", porra Elisa! Soco na jugular...

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